O Brasil chegou ao fim do segundo trimestre de 2026 com 8.080 CNPJs em recuperação judicial na base completa do Monitor RGF-BIZDOC, novo recorde do levantamento e alta de 4,1% em relação ao trimestre anterior. No recorte mais restrito, que considera matrizes ativas e exclui microempresas, filiais e negócios inativos, eram 6.382 empresas, crescimento de 22% em 12 meses. Mais importante do que o recorde em si é o que esses números revelam: a dificuldade financeira continua espalhada por empresas de diferentes portes e setores, em um ambiente no qual crédito caro, endividamento acumulado e menor capacidade de refinanciamento seguem pressionando o caixa.
O agronegócio aparece como o principal foco dessa deterioração. Ao fim do primeiro semestre, 1.263 empresas e produtores rurais estavam em recuperação judicial, alta de 66% em um ano. O comércio avançou 22% no mesmo período e a indústria de transformação, 9%. As causas variam: no campo, pesam eventos climáticos, preços das commodities, necessidade elevada de capital de giro e crédito rural mais caro; no comércio, margens pressionadas e menor poder de compra; na indústria, custos de produção e dívidas assumidas em períodos de juros mais baixos. O ponto em comum é simples: quando o custo financeiro cresce mais rápido do que a capacidade de gerar caixa, a dívida começa a limitar as decisões da empresa.
A recuperação judicial não significa automaticamente que um negócio deixou de ser viável. O instrumento existe justamente para reorganizar dívidas e permitir a continuidade de empresas que ainda possuem capacidade econômica. O alerta aparece antes, quando margens diminuem, capital de giro passa a depender cada vez mais de crédito e vencimentos precisam ser sucessivamente refinanciados. As falências também voltaram a crescer em 2026, enquanto grandes companhias vêm utilizando a recuperação extrajudicial para reorganizar passivos relevantes. O Monitor registra 2.808 empresas falidas e mostra que Raízen, GPA e Oncoclínicas reorganizaram, juntas, cerca de R$ 75 bilhões fora da recuperação judicial.
Para o empresário, a principal mensagem está justamente no que acontece antes da crise chegar aos tribunais. Uma recuperação judicial raramente começa no dia do pedido. Ela costuma ser construída quando os primeiros desequilíbrios passam a fazer parte da rotina. Crescimento financiado por dívida, margens menores e dependência constante de novos recursos podem sustentar uma operação durante algum tempo, mas reduzem progressivamente sua capacidade de reação. Em um cenário de crédito ainda caro, acompanhar liquidez, endividamento e geração de caixa deixou de ser apenas uma tarefa financeira. É uma decisão de estratégia e continuidade do negócio.
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